Quarta-feira, Fevereiro 10, 2010

Sem reparos para uma vida bem vivida, Parte IV

Após anos, como não pude notar tamanha coincidência? Sinceramente nunca parei para pensar nisso. Pensei até que a Dona Chica era minha avó, porém não tinha nenhum traço familiar. Conversei com ela sobre isso, sobre essa grande coincidência. Comentou que nunca havia reparado também. Passou as horas, e já era tarde, fiz um chá para nós duas, e ficamos sentadas no sofá, até o sono chegar. Dona Chica como de costume adormeceu primeiro. Eu a chamei para irmos para o quarto e enfim dormir. Dona Chica não respondia ao meu chamado. Coloquei minhas mãos em seus ombros, e a sacudi, que momento patético, não entendo até hoje por que fiz isso. Mas o desespero foi tão grande que não hesitei em fazer. Ela acordou assustada, que chegou a pensar que era um terremoto ou coisa parecida, nós caímos na gargalhada.

Já se passara seis anos com a Dona Chica, e ela já na beira dos seus 87 anos. Eu iria completar 20 anos. Era uma segunda feira, ela não se levantara da cama como de costume. Preferi não acordá-la, porém estranhei, pois era nosso aniversário. Fiz um café, peguei algumas bolachas, e coloquei em uma bandeja. Abri a porta devagar, e me veio ao rosto um sopro quente. Um tanto quanto estranho. Olhei para ela, não vi nada de diferente, a não ser seu rosto pálido. Reparei um envelope do lado de sua cama, em uma mesinha. Coloquei a bandeja na mesinha e peguei o envelope. Havia dois papeis. Peguei um, que estava escrito que a casa onde ela morava, deveria ser passada para o meu nome. Esse bilhete era como se fosse um testamento. Dizia mais ou menos assim:

Eu,

Francisca Ferreira da Cunha deixo esta casa em vida para minha melhor amiga e companheira de tempos Fernanda Fernandes da Cunha. E deixo todos os meus bens para ela.

Sem mais, Francisca.

Estranhei esse testamento, só reparei na assinatura dela, no canto inferior direito do papel. Uma assinatura linda. Preferi deixar esse pseudo testamento de lado, e pegar o outro papel. Eu o abri, e começava com o meu nome, mais ou menos assim:


Fernanda,

Perdoe-me pelo ocorrido aqui, não pude evitar. Meu colega lá de cima me chamou, e me assegurou que nunca faltará nada para você. Dará as bênçãos como o combinado, confie em mim, foi melhor assim. Nunca conversei com você sobre o que aconteceu na minha infância, muito menos na minha vida. Admito fui muito reservado, me arrependo, porém, lhe contarei tudo que precisa saber.
Você meu bem, é uma pessoa afeiçoada, e de bom coração. Há seis anos quando lhe conheci realmente, após anos de sua espera, achei o momento maravilhoso, apesar do ocorrido no dia. Percebi que é uma pessoa forte, e aprendeu muito com a vida. Devo-lhe muito, esses últimos seis anos.
Quando eu tinha quatorze anos, os meus pais foram assassinados no mesmo zoológico que seus pais foram mortos. Tudo o que aconteceu com você, aconteceu comigo, e com a sua mãe. Porém de uma maneira diferente, pois faleceu cedo, e no momento errado. Eu conheci sua mãe, ela morou comigo, quando eu era bem nova, claro que eu era mais velha que sua mãe. Sua avó faleceu no dia do aniversário de quatorze anos de sua mãe. Coincidência meu anjo? Não sei, só sei que você ajudará muitas pessoas neste mundo. Tens um coração gigante.
Sabes a quitanda? É sua agora. Nunca lhe contei, porém a quitanda era minha, menti sobre o dono naquele momento em que a apresentei ao meu filho.
Ainda virá pessoas pedir ajuda, com os mesmo problemas que todas nós. E você de primeiro instante, não saberá. Perceberás anos após.
Adeus minha querida, eu lhe amo muito, obrigada por cada dia.

Beijos, Dona China!