Segunda-feira, Janeiro 18, 2010

Sem reparos para uma vida bem vivida, Parte II

No final da tarde, decidimos voltar para casa, fomos em direção ao carro, onde estava realmente tranqüilo, digo, tranqüilo demais. Na ingenuidade não consegui perceber a malicia de um rapaz que estava perto do nosso carro, no estacionamento do zoológico. O rapaz chegou gritando, mandando todos sair de perto do carro, alegando ser um assalto. Agarrou minha mãe pela cintura, e colocou uma arma no rosto dela, dizendo que era melhor todos saírem de perto do carro, pois se não as coisas iriam piorar. Meu pai desesperado começou ameaçar o assaltante, porém deveria manter a calma, já que era policial, sabia o que fazer em momentos assim. Segurei meu irmão no colo, para protegê-lo, fiquei de lado dessa situação. Confiava em meu pai, sabia que tudo ia ser resolvido. Comecei a chorar no mesmo momento em que o assaltante disse que iria atirar em minha mãe. O desespero aumentava a cada minuto. Creio que a maior burrada que meu pai fez, foi ter dito que era policial. O mesmo já sem o que fazer, puxou sua arma da cintura que estava sendo escondida pelo casaco preto, para amedrontar o assaltante. Esse ficou assustado, e resolveu atirar em minha mãe. O tiro não sabe como, atingiu o coração, já que a arma estava sendo apontada para o rosto, levando-a ao óbito no mesmo momento. Larguei meu irmão de supetão e fui olhar minha mãe, toda ensangüentada no chão. Meu pai enfurecido disparou um tiro, atingindo a perna do rapaz, esse revidou, com um tiro na cabeça de meu pai. Não sei qual motivo o assaltante atirou no meu irmão também, atingindo a testa do pequenino. Peguei a bolsa de mamãe sai de perto da confusão, e me escondi atrás de uma arvore para não perder a única coisa que me restou.


Você deve estar se perguntando, o que uma garota de quatorze ano faria da vida sem a família? Naquele momento, nem eu sabia o que iria fazer ainda mais que estava em uma cidade vizinha, e não a conhecia direito. O maior problema era que a noite se aproximava, e não sabia para onde ir, eu aproveitei que ainda estava claro, e comecei a andar. Andei muito, um grande percurso. Até que avistei uma casinha simples beira a rio, de uma senhora, chamada Dona Francisca, ela estava na varanda de sua casa, sentada em uma cadeira de balanço. Eu não precisei falar nada, ela levou da cadeira, veio em minha direção, me convidando para entrar. Conversou muito comigo, fez muitas perguntas, e respondi a todas. Contei o que havia acontecido comigo há horas atrás, ela surpresa, aconselhou passar a noite na casa dela, já que não tinha mais ninguém a quem recorrer. Fui muito bem tratada, ela me cedeu uma combinação de seda para que pudesse dormir. Deu uma tolha branca, cheirosa, para que eu pudesse tomar banho. Após sair do banho, reparei que havia preparado um chá para mim. Vi a mesa toda arrumada, comecei a chorar, fui correndo para o sofá, me encolhi como se fosse uma criança desprotegida. Ela sem reação sentou ao meu lado, e me disse:

- Não te preocupe não lhe faltará nada, lhe prometo. Apenas tome seu chá coma algumas bolachas, e vá descansar. Logo pela manhã, nós resolvemos o que fazer.